DESRAZÃO -o reino dos de fora

Um homem e uma mulher, Ângelo e Ofélia, ambos estranhos, se encontram num lugar e situação caótica, por acaso. Ali tudo se decompõe, suas mentes, suas vidas, suas ideias em diálogos oras desconexos, oras não, um necessita do outro, enquanto a noite se deteriora juntamente com seus sonhos, uma Rainha e um Guerreiro, razão ou loucura, o que é normal?

“DESRAZÃO” – O REINO DOS DE FORA
A dramaturgia:
    O espetáculo surgiu da “necessidade” de se questionar - a nós mesmos artistas/criadores da Cia São Genésio - e de expor e explorar ao público, a questão: quem é normal? Ou quem é anormal? E o que seria na sociedade de hoje ou de ontem a anormalidade? Qual a linha tênue que nos afasta ou nos aproxima da dita razão ou da tal loucura?
Algo que nos leva a sair dos trilhos, a agir como tal, a ponto de ser considerado insano ou são. O que faz com que notícias tão atrozes que chegam até nós na banalização da frequência do dia a dia se torne mais aceitável do que o não convencional do surrealismo, dadaísmo, da contemporaneidade nas diversas manifestações artísticas tão questionadas e por muitos não compreendida, porque fogem da concepção do “normal”.

Deste incômodo de querer dialogar sobre “ser ou não ser louco” o primeiro nome que surgiu foi o do filósofo pensador francês Foulcault, autor de “A História da Loucura” onde iniciamos uma pesquisa em seus pensamentos, tanto para o autor, como atores do espetáculo.

“A internação clássica enreda, com a loucura, a libertinagem de pensamento e de fala, a obstinação na impiedade ou na heterodoxia, a blasfêmia, a bruxaria, a alquimia – em suma, tudo o que caracteriza o mundo falado e interditado da desrazão; a loucura é a linguagem excluída” (Foucault, 2006, p.215).

A partir do tema escolhido e uma pesquisa incessante surgiu o fascínio pela personagem real “Estamira” que protagoniza o documentário de mesmo nome. E assim a vontade de falar sobre a loucura (doenças mentais) e sua exclusão, tratada ou não, e a exclusão de si própria se extirpando da sociedade da qual não se sente no padrão e não a reconhece no mesmo.
Desta forma a nossa protagonista deste texto Ofélia Regina – ao contrário da Ofélia que enlouquece e se afoga excluindo-se do reino dos homens sãos do texto “Hamlet”, Shakespeare – neste espetáculo, ela se isola do mundo dentro do “Fora”, criando seu universo à parte, seu reino, em um “mar de lixo” ou aterro sanitário. Mesmo enlouquecendo no mundo dos homens da qual se sentiu excluída, ela toma suas atitudes dentro de sua visão psicótica e esquizofrênica.

Na “desrazão” de Ofélia Regina, ali é seu reino, um castelo, seu território, onde ela é a rainha, um lugar onde ninguém vai, onde ela não será cobrada ou terá que cumprir as regras da sociedade. Onde ela tem palavra, já que na sociedade os “loucos” não são ouvidos, não tem voz, a única língua é o silêncio.
O diálogo sobre razão e loucura se da através da criação do personagem Ângelo, que (como anjo e guerreiro) vem de fora – a sociedade – para dentro do fora – o lixo, o mundo de Ofélia o onde se da o embate das diferenças e desejos.

Ângelo tem como ponto de partida de criação-inspiração, o personagem Dom Quixote de Miguel Cervantes, nesta obra ele é um homem contemporâneo quixotesco que em luta contra um sistema imaginário no qual acredita que existe dentro de sua psicose. Há também em sua personalidade psicótica a base em um personagem da vida real que colaborou para grande parte da criação deste.
Ângelo e Ofélia

Um homem e uma mulher, um de dentro e um de fora, um da luz e um das sombras. Ele precisa ficar ali até amanhecer em sua fuga do seu “imaginário sistema” e ela precisa de uma mera distração em seu pseudo-reino. Assim se cria uma relação de dominado e dominador.
Segundo Peter Pal Pelbart “O Fora” em Nietzsche chama-se Caos. Nome equívoco, organizador, unificador, signo-substantivo cuja função é fazer entrar na ordem do discurso aquilo que não tem ordem, substância nem unidade.

Desta maneira discorre o encontro dos personagens opostos num cenário caótico onde tudo está em decomposição, os pensamentos se deterioram assim como o entorno afunilando-os para um acordo ou desacordo, trégua ou guerra, pronto com tons de drama e humor.
Desrazão e o reino dos de fora...

Desrazão esta, que é o perder-se da razão e distanciar-se, afastar-se dela de acordo com suas histórias, suas emoções, suas sensibilidades, isso não os faz mais ou menos loucos, sem ouvi-los, sem sabê-los, para que se conheça a razão que se leva a sair do dentro e ir para o fora. Migrar do silêncio e ir para a palavra.
O Cenário: Partindo desta pesquisa, o cenário sugere uma demarcação de lixo (materiais plásticos, fazendo assim o papel do mar em que Ofélia se afoga e fica à beira deste mar). Alguns elementos como canos de PVC, sacos e sacolas compões esta pintura caótica e caustica do singelo reino putrefato.
Estes elementos translúcidos transitam e movimentam-se através das intenções e ações dos atores, movimentando-os para pontos distintos, onde caixotes transitam da forma de torre do castelo, para o trono da rainha entre outros.

Os elementos se transformam em diversas imagens e sons, são ruídos que pautam a trama, movimentam-se através dos corpos dos atores como vestes e adereços cênicos, sendo percussão para cenas, pauta das emoções.

O castelo de Ofélia, assim como seu trono se compõe e decompõe se tornando destruição que tem como inspiração e provocação o argumento de “Pelbart” sobre a arte contemporânea onde...
A obra sugere - uma desmontagem da estrutura, da forma, da comunicação, de seu caráter de produto finalizado; atentando contra a consistência, essas obras lembram mais a ruína do que propriamente um movimento de construção... Nada similar à noção vulgar de obra. A elas melhor se aplicaria o termo feliz de “Blanchot” – Desobramento. Se há ali trabalho, visa a demolição da própria noção de trabalho, de obra, de linguagem, de palavra, do enquadre, da inteligibilidade etc.

Sendo assim, a pesquisa cenográfica se pauta e evolui no conceito de simbolizar uma casa em meio ao lixo, e construída a partir dele, daquilo que foi dispensado, que não serve mais aos normais, aos “de dentro”. Os objetos, elementos cenográficos oriundos do universo do lixo, ganharão outras utilidades e conotações, por meio da utilização pelos atores no espaço cênico. Um castelo desconstruído em meio ao lixão, no qual indícios de um lar explodido são dispostos pelo palco. Busca-se, assim, uma possível leitura de um universo pós-apocalíptico.

Os Figurinos:

Há uma diferença entre os figurinos das personagens e conceitos distintos, aonde um vem do “externo”, a sociedade, o mundo fora do lixo, no caso de Ângelo. E o figurino de Ofélia que esta dentro do fora, exclusa de tudo.

Ambas as personagens mesclam fantasia e realidade, porem Ângelo ainda vive em sociedade, já Ofélia não.

Porem Ângelo aos poucos se revela anjo e fugitivo de uma clinica psiquiátrica, então seu figurino revela que dentro de sua personagem inteligente e de classe A ou B, no decorrer de sua fuga se disfarçou, furtando e  peças de vestuário encontradas na rota de sua fuga, tornando o dentro de sua certa aristocracia.
Já Ofélia, tem o seu dia a dia trabalhando como catadora de lixo, porem seu figurino “não” tem como base a pesquisa das vestimentas das catadoras de lixo, porque na calmaria da noite, ela se liberta dos seus afazeres e sonha. Delira ser ali seu reino e sendo assim, ela se torna rainha de seu castelo em traje que remete ao burlesco, a destruição do lúdico, a decomposição do belo.Como “rainha” ela se adorna e se veste colhendo peças de roupas que ali estão, e conta sua história desfilando capa de sacolas de supermercado, Os figurinos vão se encorpando ao cenário, assim como os atores e os objetos.

Os figurinos são peças criadas ou não e customizadas para terem e proporcionarem a história que trazem, em cores, desbotamentos, marcas, texturas, tons puídos, costuras. Roupas essas que foram se acoplando aos seus corpos com o tempo, as horas ou dias de fuga de Ângelo, e os anos que Ofélia colheu as sobras do que chegou ali.

Todo o caos e deterioração de um mundo em decomposição está marcado na vida das personagens através da dramaturgia, na paisagem do cenário e seus adereços marcados pelo tempo e suas sonoridades e na indumentária dos atores, trazendo o caustico de dentro para fora e de fora para dentro. Tanto dos atores-personagens como da razão e da desrazão.

Luz: O desenho de luz propõe ilustrar este universo apocalíptico de uma noite no lixo. Os reflexos no brilho dos plásticos e seus volumes, cores, causando uma paisagem distorcida e decadente, sombria, caótica.

As personagens em seus figurinos e objetos se tornam ainda menos reais e disformes através desta luz que também se decompõe e se deteriora, assim como tudo o que esta presente em cena.
Por outro lado esta mesma luz reporta as personagens e as embala em seus sonhos distantes do passado que vem a tona, trazendo o lúdico dos momentos delicados juntamente com o figurino e os sons.
Sombras e silhuetas marcam o duelo de Ofélia Regina e Ângelo e seus arquétipos de rainha e anjo, vítima e guerreiro, Dom Quixote e a Ofélia de Shakespeare que se afoga, desta vez em seu mar de lixo.
Claridade e trevas marcam e distinguem não o bem e o mal, ou a razão e a loucura, mas o ficar dentro do fora ou sair para o dentro. As sombras da noite e a luz que traz o amanhecer talvez possibilite alguma saída.

FICHA TÉCNICA DO ESPETÁCULO
Com: Rita Oliveira e Cesar Povero
Autor: Cesar Povero
Direção: Amanda Moreira
Iluminação/criação: Airton Silva
Figurino: Cesar Povero
Cenografia: Cia São Genésio
Sonoplastia/criação: Amanda Moreira/ Carol Lopes
Arte Visual/Cartaz - Lenio Mendes
Coordenador / Produtor Executivo – Juraci Moreira
Produção: Cia São Genésio
Indicação: 14 anos

2 comentários

  • Robert Gavick
    Robert Gavick Quinta, 31 Outubro 2013 17:23 Link do comentário

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  • Dziudek
    Dziudek Quinta, 31 Outubro 2013 17:23 Link do comentário

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